domingo, 11 de outubro de 2009

Já cansei


Já cansei de te esperar

Não quero mais saber de te ligar

Não quero mais me interessar

Mas o problema aí está

que é só querer

não é deixar

quarta-feira, 25 de março de 2009

O menino da camisa de botão

Todo charme do menino estava nos botões da sua camisa, talvez não todo, mas foi o fato de a camisa poder ser abotoada e a idéia de desabotoá-la que lhe chamou a atenção. Não que baste colocar uma camisa sóbria com seis a oito botões para convencê-la a tirar tua roupa; há detalhes no corte da camisa, no tipo do tecido e no material dos botões que fazem toda a diferença. Esse menino, além da camisa sempre limpa e bem passada e do ar elegante que esta lhe conferia, não tinha nenhum outro atrativo para ela. Seus olhos castanhos não tinham nenhum brilho especial, mãos ou braços bonitos, nada. Mas é que botões sempre a fascinaram, adorava os feitos de ossos ou madeira, os de madre-pérola só para roupas femininas, e o movimento com as mãos para tirar da casa um botão lhe parecia bem mais bonito que puxar uma blusa, e o para tirar do menino a camisa mais lento e sensível. Já faz tempo que os meninos não usam mais camisas, ela não perderia aquela.

quinta-feira, 19 de março de 2009


De todos os jardins aquele não era o mais cuidado, mas as plantas aprenderam a cuidar-se sozinhas e talvez ninguém as saiba cuidar melhor. Sozinhas estão melhor, melhor a paz da solidão que admiradores intrusos. É um belo jardim, tão verde a ponto de esverdear os olhos. Sinto falta do jardim. Se pudesse, estaria lá agora, atirada num banco que ainda lhe resta, sentindo a noite me invadir. Hoje é um dia de tristeza e dúvidas, para contrapor os de alegria, dia em que faz falta um abraço e um jardim quase mato. Na solidão do jardim minha solidão é pequena e um abraço confortaria meu sono nesse dia que já se fez noite.
Ainda não sei descrever a sensação que, quando ao fazer a cama, me dá encontrar fios dos meus cabelos, agora brancos. A questão não são os fios, é serem meus. Lembro de quando fazia a cama da minha mãe e os fios estavam quase todos lá entre os lençóis e de quando, ainda jovem, ela me dizia à quem avisar primeiro sobre sua morte e quem escolher para cuidar de mim. Ela sempre me preparou para as perdas, mas ainda não me sinto preparada para me perder.